Técnica
O cliente fantasma
promptskillrevisaopontos-cegosentregapre-mortem
Problema
Você constrói uma solução, testa, funciona, entrega. E aí a pessoa trava em algo que nunca passou pela sua cabeça: não consegue abrir o arquivo, não entende o nome da coluna, não tem acesso ao sistema, recebe o resultado num formato que não serve pro que ela precisava fazer.
O motivo é chato de admitir: quem constrói testa do próprio lugar. Você tem acesso a tudo, sabe onde clicar e conhece o contexto inteiro, então o percurso da outra pessoa fica invisível. O erro quase nunca está na inteligência da solução, está no atrito da primeira vez que alguém sem o seu contexto encosta nela.
O detalhe que faz essa revisão custar quase nada: se você construiu a coisa conversando com a IA, ela já tem tudo na mão. A solução, o percurso, quem pediu. Não é preciso montar contexto nenhum, é só não encerrar a conversa antes de rodar mais um passo.
Técnica
Rode isto no fim da conversa em que você construiu a coisa, antes de dizer “terminei”. Funciona em qualquer chat (Claude, ChatGPT, Gemini). Cole:
Antes de eu dar isso por pronto, quero que você faça o papel da pessoa
que vai usar o que a gente construiu aqui.
Use o contexto desta conversa pra montar essa pessoa. Se faltar alguma
coisa pra você fazer isso bem, me pergunte no máximo duas, e comece
por: o que essa pessoa NÃO tem (acesso, permissão, familiaridade com a
ferramenta, tempo) e qual é o percurso de uso completo, do primeiro
passo dela até o resultado na mão.
Depois faça nesta ordem:
1. Escreva a entrevista inteira, os dois lados. Você faz as perguntas e
você responde no papel dessa pessoa, reagindo à entrega. Não me faça
perguntas aqui, eu só vou ler.
2. Priorize o que atrapalha o uso (acesso, permissão, formato, onde ela
trava, o que ela não entende, o que ela vai ter que fazer na mão
mesmo assim) em vez do que elogia a ideia.
3. Liste os pontos de ajuste em duas listas: o que QUEBRA a entrega e o
que é SÓ MELHORIA.
4. Aplique você mesmo as correções da primeira lista e me diga o que
mudou, uma linha por alteração, no formato "o que mudou → por quê".
O que for irreversível ou fora do seu alcance, me proponha em vez de
executar.
5. Feche com um pré-mortem: assuma que eu já entreguei e fracassou feio,
e liste as razões mais prováveis, da mais provável pra menos.
Não seja gentil por educação. Se a entrevista sair elogiosa, ela falhou.
Se você construiu a coisa fora da IA e só quer a revisão, o prompt funciona igual: descreva antes o que você construiu e o percurso de uso, e siga a partir do item 1.
Como aplicar
O percurso vale mais que a descrição da solução. É aqui que a técnica ganha ou perde. “Um agente que gera um relatório” devolve elogio genérico. “O agente gera o documento, salva na pasta X e manda o link por e-mail” deixa a IA perguntar como a pessoa vai abrir aquele link. O furo mora no caminho, não na ideia.
Diga o que a pessoa não tem. Acesso, permissão, familiaridade, tempo. O ponto cego de quem constrói nasce justamente do que ele tem e esquece que o outro não tem.
Exija o resumo do que foi corrigido. Correção aplicada em silêncio é correção que você não consegue desfazer. Peça o “o que mudou → por quê” sempre, e leia antes de seguir. É o que separa autonomia de aposta.
Rode com o perfil menos parecido com você. Se a entrega vai pra cinco pessoas, escolha a que tem menos contexto e menos paciência. As dúvidas dela cobrem as das outras quatro.
O pré-mortem não é a mesma pergunta com outro nome. A entrevista acha atrito de uso; o pré-mortem acha o motivo de a coisa morrer depois de entregue (ninguém adota, vira trabalho a mais, quebra quando o volume cresce). Partir do fracasso como coisa que já aconteceu costuma puxar resposta mais honesta do que perguntar “quais são os riscos”.
Nada disso substitui colocar na mão de quem vai usar. É lá que você aprende o que não dava pra prever. O que o cliente fantasma pega bem é a outra categoria: o erro que fica óbvio depois que alguém tropeça nele.
Se o que você vai entregar é uma conversa, e não um artefato, a técnica irmã é o ensaio de reunião difícil: lá a IA faz o papel de quem você precisa convencer e você responde. Aqui a entrega é o objeto, e você lê.
Versão em skill (pra quem usa Claude)
Colar o prompt toda vez tem um problema: você só lembra dele quando lembra. Como skill, ela dispara sozinha quando você sinaliza que terminou alguma coisa, que é justo o momento em que você não ia lembrar. Salve o conteúdo abaixo em .claude/skills/cliente-fantasma/SKILL.md:
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name: cliente-fantasma
description: Use como passo de fechamento antes de o usuário dar por encerrada qualquer coisa que vocês construíram juntos (agente, automação, planilha, documento, processo, apresentação) e que outra pessoa vai usar. Simula a entrevista completa com quem vai usar aquilo, acha o atrito de uso que o construtor não enxerga, aplica as correções e fecha com um pré-mortem. Trigger quando ele disser "passa pelo cliente fantasma", "acha os pontos cegos disso", "isso tá pronto pra entregar?", ou quando ele sinalizar que terminou algo que vai entregar.
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# Cliente fantasma
Simule a pessoa que vai usar o que foi construído, ache o atrito que o construtor não enxerga porque testou do próprio lugar, e corrija antes de a entrega sair. Franqueza vale mais que elogio: uma entrevista simpática não serve pra nada aqui.
Esta skill roda **dentro da conversa em que a solução foi construída**, como último passo antes do "terminei". Você já tem o contexto: a solução, o percurso, quem pediu. Use isso em vez de pedir tudo de novo.
## Quando rodar
- Quando o usuário sinalizar que terminou algo que outra pessoa vai usar ("acho que tá pronto", "vou mandar pra ela", "finalizei").
- Sob demanda: "passa pelo cliente fantasma", "onde isso vai furar?".
## Passo 1: Montar a persona com o que já está na mesa
Reconstrua sozinho, do contexto da conversa: o que foi construído, o percurso de uso (onde o arquivo nasce, como a pessoa recebe, o que ela clica, o que faz com o resultado) e quem vai usar.
Pergunte **só o que faltar de verdade**, no máximo duas coisas, e as duas que mais faltam costumam ser:
1. **O que essa pessoa não tem:** acesso, permissão, familiaridade com a ferramenta, tempo, contexto do projeto. É a origem mais comum do ponto cego, porque o construtor tem tudo isso e esquece.
2. **O pedaço do percurso que ficou implícito**, se vocês nunca falaram dele.
Se der pra inferir com segurança, infira e diga a suposição em uma linha, em vez de interrogar.
## Passo 2: Escrever a entrevista inteira
Escreva os dois lados: você faz as perguntas e responde no papel da pessoa, reagindo à entrega na primeira pessoa. **Não faça perguntas ao usuário nesta etapa.** Ele não participa, ele lê.
Priorize o atrito de uso sobre a discussão da ideia: acesso, permissão, formato, onde a pessoa trava, o que ela não vai entender, o que ela vai ter que fazer na mão mesmo assim.
## Passo 3: Separar os achados
Feche a entrevista com duas listas, cada uma ordenada pela probabilidade de acontecer:
- **Quebra a entrega:** o que impede a pessoa de usar.
- **Só melhoria:** o que incomoda mas não impede.
## Passo 4: Aplicar as correções e mostrar o que mudou
Corrija sozinho tudo da lista "quebra a entrega" que estiver ao seu alcance na sessão. Depois de aplicar, entregue um resumo curto no formato `o que mudou → por quê`, um item por linha.
Duas regras que governam este passo:
- **Nada de correção silenciosa.** Toda alteração aplicada aparece no resumo. O usuário precisa conseguir desfazer, e ele só desfaz o que enxerga.
- **O que for irreversível ou fora do seu alcance, você propõe, não executa.** Apagar, sobrescrever original, mexer em permissão de sistema, mandar mensagem pra alguém: entra como recomendação com o passo exato, e o usuário decide.
Os itens de "só melhoria" ficam como sugestão, sem aplicar.
## Passo 5: Pré-mortem
Assuma que a entrega já aconteceu e fracassou feio. Liste as razões mais prováveis, da mais provável pra menos. Procure a categoria que a entrevista não pega: ninguém adotou, virou trabalho a mais pra alguém, quebrou quando o volume cresceu, a pessoa usou errado e ninguém percebeu.
## Princípio
Quem constrói testa do próprio lugar, com o próprio acesso. O cliente fantasma existe pra devolver o percurso da outra pessoa antes que ela viva ele de verdade. Se a entrevista sair elogiosa, ela falhou: volte, puxe o percurso de uso com mais detalhe e rode de novo.
O ganho não é a IA aprovar o seu trabalho. É você descobrir, no particular, o detalhe bobo que ia derrubar a entrega inteira na frente de quem pediu.
Escrevo técnicas assim toda semana na Modo IA, minha newsletter sobre usar IA no trabalho de verdade. Se isso te ajudou, provavelmente as próximas também ajudam.